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Luis Dantas


Dois livros, duas lições que se complementam

 

O Árabe do Futuro, o primeiro livro de uma trilogia autobiográfica que espero que faça muito sucesso no Brasil e seja completamente traduzida e publicada, é um livro de sinceridade devastadora, visceral.

Neste volume, o autor tem conta histórias desde antes de seu nascimento até quando tinha quatro anos de idade, e suas poucas referências de mundo vinham quase todas de uma mãe inexplicavelmente passiva e de um pai por demais apegado a superstições, delírios ingênuos de um destino grandioso, tradições opressoras e nacionalismos destrutivos.

Talvez o mais significativo de uma perspectiva brasileira seja o quão semelhantes são os efeitos nocivos da criação omissa e teísta nas crianças sírias e nas brasileiras. Mas há também uma denúncia quase acidental do apego à idéia do "bom caudilho", que nós brasileiros insistimos tanto em prestigiar, remontando pelo menos a Getúlio Vargas, mas passando também por Lula e Dilma.

 

Um País Sem Excelências e Mordomias é o tipo de livro que nos deixa com água na boca pelo que poderia ser se nós pelo menos tivéssemos a coragem de buscar...

De certa forma é também um livro autobiográfico. A autora é repórter televisiva (brasileira) e casada com um cidadão sueco. Dessa forma teve experiência em primeira mão com as muito contrastantes expectativas e fantasias que suecos e brasileiros tem a respeito de seus próprios políticos. Ainda não terminei de ler este livro, mas ele já me evidencia que não há substituto para a verdadeira maturidade política, e que só os muito ingênuos poderiam acreditar que ter um "ditador bem intencionado" seria de alguma forma desejável ou construtivo.

Não existe nação, ou mesmo cidade, sem cidadania. E não existe cidadania quando os habitantes não estão interessados no bem-estar da comunidade, em vez de apenas no seu próprio. Essa é uma lição que os suecos aprenderam de uma forma que, suspeito, muitos brasileiros no fundo não querem aceitar, que dirá aprender e praticar. Maturidade política é para quem se leva a sério, quem está mais disposto a arregaçar as mangas (e lavar e passar as roupas) do que a alegar "injustiça" e demandar exceções e privilégios.

Nesse ponto, o Brasil não apenas é um lugar miserável. É também auto-iludido ao ponto de achar que essa miséria é desejável.



Escrito por Luis Dantas às 22h15
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Um breve manifesto contra a crença em Deus

O que a crença em Deus é

Na verdade não é muita coisa. Melhor dizendo, não é praticamente nada, e talvez seja menos ainda do que nada.

O conceito de "deus" é tão vago, e tantas pessoas insistem em esticar o seu significado por qualquer pretexto e com tanta paixão, que hoje não significa praticamente nada, pelo menos sem um considerável esforço de esclarecimento e contextualização.

Nos casos mais benignos, crer em Deus parece ser acreditar que o que é sagrado merece ser tratado como se fosse um ser sentiente com uma personalidade definida. Algumas vezes atribuem a ele também a capacidade e a vontade de, inexplicavelmente, se expressar com palavras humanas e para seres humanos. É uma idéia bastante esquisita, mas por si só não chega ainda a ser nociva. Ainda.

Mas nesse estágio a crença em Deus já é uma distração bastante indesejável, uma excentricidade que só é realmente tolerável se não for levada muito a sério ou levantada com muita frequência. Pois do contrário acontece com frequência de pessoas de boa intenção que poderiam estar refletindo sobre suas ações e decisões e as respectivas consequências e as implicações éticas - ou seja, poderiam estar praticando a verdadeira religiosidade - muitas vezes se vêem sem espaço para tal porque estão cercados de gente fascinada por truques de palco, por supostos mistérios de fé sem significado ou profundidade, ou barganhas de proteção que lembram bastante a negociação que se faria com representantes da Máfia. Por tanta gente insistir em crer em Deus, a religião perde espaço para cuidar direito de si própria, o que é necessariamente muito mais importante.

Outros parecem invocar a palavra e a crença como uma defesa instintiva para sua própria vulnerabilidade à incerteza. "Deus" passa a ser, para todos os efeitos práticos, uma palavra que não significa nada e certamente não responde nem explica nada, mas serve como um sinal para os que tem aversão a assuntos difíceis começarem a agir como se tivessem certezas e respostas mesmo quando sabem que não o tem. É possível lidar construtivamente com essa etiqueta perversa e corruptora, mas não é fácil; a própria correnteza da expectativa social de concordância vazia, não raro fraudulenta até, leva as pessoas imersas nesses ambientes a se ver sem escolhas além das de ser sincero e portanto rude, ou falso e portanto socialmente aceito.

Existem estágios ainda mais doentios de crença teísta, mas vamos deixar para falar deles mais adiante.

Por que tanta gente crê em Deus?

Honestamente, tenho minhas dúvidas se são realmente tantos assim os teístas. Muita gente cresceu aprendendo que deve dizer que acredita em Deus, mas não se segue que seja realmente esse o caso. Como é um conceito de tão mísera importância, a crença na existência de um deus não tem necessariamente consequências significativas, enquanto que muitas vezes a declaração aberta da descrença tem, essa sim, consequências sociais desagradáveis. Acho possível e até provável que muita gente só não se considere ateísta porque não encontrou as circunstâncias adequadas para refletir a respeito.

Dito isto, é claro que há sim quem crê em Deus. Não que isso por si só diga muita coisa. Um dos principais motivos por que o conceito perdura até hoje é a sua falta de significado claro. Por ser tão difícil entender o que outra pessoa entende por divindade, o discurso que se focaliza nesse conceito disfarça e até oculta por completo as diferenças de opinião. Não as resolve, muito pelo contrário, mas esconde e adia as confrontações que muitos temem.

E talvez esse seja atrativo suficiente para alguns. Lidar com desentendimentos e discordâncias não é fácil. Sentir-se isolado devido a suas crenças e opiniões não é fácil. Ter motivos para duvidar da própria capacidade de cativar a cooperação de outros não é fácil.

Suponho que é apenas humano querer encontrar um pretexto para acreditar que se está entre irmãos de propósito, de valores, de metas de vida. Mas realmente não acho que devemos simplesmente nos conformar em fazê-lo ao custo de nossa honestidade com nós mesmos.

É possível ter valores sem crer em Deus?

Não é apenas possível, é consideravelmente mais fácil, mas confiável e tem mais valor.

A idéia de que seria preciso "crer em algo" - seja um Deus com características de pessoa poderosa, seja uma energia misteriosa que conduziria os rumos da existência, para citar apenas duas concepções particularmente populares - para ter algum tipo de valor ou referência moral é realmente bastante estranha.

Por que seria necessário, ou mesmo útil, "crer" para perceber que é preciso aceitar certo grau de responsabilidade pela qualidade de nosso ambiente e nosso papel na manutenção dessa qualidade?

Moralidade não vem de prescrições de textos de origem duvidosa e significados perdidos no tempo. Moralidade é uma necessidade real, não inventada. É uma atividade racional que pode e deve se orientar pela constatação de que temos necessidades e certa capacidade de ação e de influência sobre nosso meio. E que nossos semelhantes também as tem. Moralidade nada mais é do que a arte e a disciplina de aprender e aceitar a responsabilidade pelos meios de zelar pelo meio ambiente, no sentido mais amplo que nossas capacidades pessoais permitam.



Escrito por Luis Dantas às 18h58
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