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Luis Dantas


Nota de Repúdio aos insultos de André Constantine ao Ateísmo

Recebeu certa atenção a declaração recente de André Constantine, ex-diácono da Igreja Universal do Reino de Deus.

Questionado sobre se pastores e políticos evangélicos metidos em corrupção têm fé, Constantine é taxativo: "Pra mim esses caras são os verdadeiros ateus. É tudo empresa cara, a estrutura toda funciona como empresa. E na lógica do capital a empresa foca o lucro, assim como essas instituições religiosas. A nossa sorte é que eles ainda são muito fracionados, há interesses pessoais muito grandes envolvidos. Se não estivessem tão fracionados a possibilidade de eleger um presidente evangélico seria muito maior. Olhe o Malafaia: ladrão pilantra e safado. Apoiou o Cunha, e agora sai por aí dizendo que não tem, nem nunca teve, nada com o Cunha. Esse Malafaia é um dos maiores safados e pilantras do Brasil", acusa o ex-diácono.

Em certo momento desabafei no Facebook, ao saber dessa surpreendente declaração, que me frustra a forma como o teísmo cria essa corrupção e depois decide culpar a nós ateus por ela.

Como é possível que não esteja completamente claro por que faço essa afirmação, elaboro aqui.

Cabe antes de mais nada explicitar o óbvio: verdadeiros ateus são, por definição, aqueles que realmente não acreditam na existência em deuses. Nada mais, nada menos. Deve ficar sempre perfeitamente claro que chamar corruptos de ateus, e mais ainda de "verdadeiros ateus", não é nada mais nem nada menos do que insultar gratuitamente o ateísmo, um exercício de preconceito e discriminação completamente injustificados. Por mais que eu louve a atitude de Constantine em denunciar os graves abusos do meio que frequentava, melhor faria ele se culpasse os culpados sem manchar a reputação dos inocentes.

De fato, o que mais me entristece e revolta nessa história é minha suspeita de que Constantine sequer percebeu que estava insultando inocentes. Porque, é sempre bom lembrar, ateísmo não é defeito moral. É simples posição de crença, ou melhor dizendo, de descrença. Mas certos círculos tentam tão insistentemente propagar o mito de que "crer é bom" - significando que seria inerentemente bom, como se de alguma forma crer em divindades tornasse as pessoas melhores, mais virtuosas no sentido moral - que muitos acreditam sinceramente e até louvam essa mentira odiosa.

Pois não cabem meias palavras aqui. É sim de mentira odiosa que se trata, nada menos. Qualquer pessoa que observe a verdade dos fatos com um mínimo de honestidade há de constatar que, longe de ser um farol que indica o caminho da virtude, a crença em Deus frequentemente - e não duvido que isso ocorra inclusive na maior parte das vezes - torna-se simples desculpa para a auto-justificação em desafio aos fatos, aos direitos de outros, ao respeito aos demais. Ganhou um espaço completamente exagerado na nossa cultura a idéia de que quem "está com Deus" de alguma forma está melhor, merece mais, vale mais e deve ser mais desculpado do que os outros. E tal idéia não merece respeito algum. Nem meu, nem de outros ateus, e na minha sincera opinião, muito menos dos teístas de boa fé, que deveriam se enojar diante da idéia de serem confundidos com gente de mentalidade tão torpe como esses "chauvinistas da crença". Crer em Deus é legítimo; eu não recomendo, mas reconheço que para muita gente é apenas natural. Mas se esconder atrás da crença para travestir de respeitáveis atitudes que são francamente egoístas, corruptas, discriminatórias é exatamente tão patético quanto parece ser.

Ateus não tem motivos para deixar de apontar esse fato com toda a clareza. E teístas tem todos os bons motivos para insistir em apontá-lo. Assim como crer em Deus não é de forma alguma garantia de honestidade, da mesma forma e pelos mesmos motivos é uma ingenuidade cruel e perigosa pressupor que ateus "tendem" a ser desonestos ou em algum sentido corruptos. Aqueles que vêem beleza na crença em Deus deveriam em minha opinião ser os primeiros a ressaltar que crença não é desculpa para tachar injustamente a descrença. Se os crentes sentem necessidade de se contrastar com os descrentes para se sentir melhor, isso não tem como deixar de ser sinal de fragilidade e insegurança, pelas quais seria absurdo culpar os descrentes.



Escrito por Luis Dantas às 19h10
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