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Luis Dantas


A Teoria do Grande Homem

Aprendi ontem que Thomas Carlyle propôs na década de 1840 a "Teoria do Grande Homem", segundo a qual os eventos importantes da História são determinados pelo impacto de "Grandes Homens" ou "Heróis".

É uma tese não de todo surpreendente.  Fiquei feliz em aprender também que a contestação veio relativamente cedo, e gratificado (talvez ironicamente) em saber que um dos primeiros críticos sérios veio a ser Herbert Spencer, a quem se atribui também a alcunha da infeliz expressão "Darwinismo Social".

É interessante contrastar as duas idéias, e considerar a época em que ocorreram.  Talvez nenhum século tenha sido tão conturbado de um ponto de vista intelectual quanto o século dezenove, a época em que o Eurocentrismo vivia seus derradeiros estertores, em uma lenta e dolorida agonia que criou idéias tão exóticas e desesperadas quanto o Positivismo de Augusto Comte, o Espiritismo de Allan Kardec, e a Teosofia de H.P. Blavatsky.   A cultura européia e seus descendentes nas Américas aprendiam que nunca mais poderiam se ver como o centro e razão de toda a existência, e instintivamente se apegavam às muitas mas alquebradas promessas de que no fim das contas essa seria uma mentira ou ilusão, e seus valores e perspectivas seriam sim determinantes em toda a existência afinal de contas.  Foi uma época notável pelo enorme grau de aceitação de ideologias absolutamente pobres de lógica e de conteúdo, simplesmente porque prometiam conforto a curto prazo.

A Teoria do Grande Homem, em minha opinião, é parte integrante desse pânico ideológico eurocêntrico, e teve muitas das mesmas causas.

E quais seriam essas causas?  Por que, afinal de contas, o século dezenove foi tão conturbado de um ponto de vista intelectual?

Até onde posso ver, parece ter sido devido a uma conjunção dramática de fatores.  Entre eles, o avanço da tecnologia e a consequente perda das tradições e certezas que veio com ela.  Locomotivas, luz elétrica, geladeiras, até mesmo telefones tornaram possíveis estilos de vida muito mais ambiciosos e abrangentes do que se poderia sonhar poucas décadas antes.  Ninguém compreendia plenamente que tipo de consequências haveria ou deveria haver do contato tão facilitado com idéias tão exóticas e difíceis de entender e controlar.  Em 1889 (o mesmo ano da Proclamação da República no Brasil) inaugurava-se o Expresso do Oriente, e com ele passou a ser possível fazer o trajeto entre Paris e Constantinopla (hoje Istambul) confortavelmente e em menos de três dias.

Hoje isso pode não parecer tanta coisa, mas não tenho dúvida de que para muitos esse foi um choque cultural sem precedentes.  Constantinopla era a capital do Império Romano do Oriente, e alcançá-la era algo tão difícil, e exigia tanta determinação, que por muito tempo nobres europeus que garantiam ser os legítimos Imperadores passaram vidas inteiras sem sequer chegar perto da região.  O Império Romano do Oriente terminou no século quinze, cerca de mil anos depois do seu "irmão" em Roma, mas a própria distância fez com que na prática sua existência fosse relativamente sem consequências para o cotidiano da Europa; era apenas mais uma entre tantas culturas exóticas, distantes, quase lendárias e impossíveis de entender.

No entanto, essa era uma situação caminhando rapidamente para seu fim. O fim da escravidão, o declínio do prestígio da nobreza, a inevitabilidade do contato com culturas de outros continentes e da constatação de que eram no fim das contas gente com quem se poderia aprender muito, e não apenas hordas de bárbaros necessitando de orientação condescendente, esses e outros fatores tornavam gradativamente mais difícil ter a segurança sobre os rumos do futuro que era tão natural em tempos nos quais não se conhecia outra forma de viver.

Outro fator, frequentemente esquecido, é a insegurança que advém do aumento da população e do avanço da medicina.  Com todas as desvantagens que tem, uma vida em que você pelo menos sabe exatamente a quem paga impostos e em que a negociação de seu espaço vital e direitos é feita com apenas um punhado de pessoas, com uma hierarquia clara e cujos nomes todos conhecem com exatidão traz certezas e rumos claros.  Não se deve menosprezar o impacto psicológico de estar à mercê da boa vontade de uma classe política que nunca saberá da sua existência enquanto indivíduo.   Ninguém se sente realmente confortável sendo redundante, sendo simplesmente mais um entre inúmeros outros.  E o século dezenove pedia não apenas que aceitássemos que nossos regentes não soubessem nossos nomes, mas também que aceitássemos como significativa a existência de culturas inteiras que antes pareciam distantes e inalcançáveis.  Culturas que não falavam a mesma língua e que apresentavam diferenças que até hoje oferecem desafios consideráveis até mesmo para profissionais dedicados à tarefa de entendê-las.  Por mais que essa tarefa seja necessária e honrada, não se pode estranhar que o europeu típico quisesse se convencer de que ela não era particularmente importante, e não teria por que criar muitas mudanças em suas perspetivas - fosse essa ou não a verdade.



Escrito por Luis Dantas às 04h46
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