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Luis Dantas


A necessidade do reconhecimento e cuidado das Holarquias, ou : Por que os futuros grandiosos não acontecem de forma sustentável?

Um conceito que aprendi com Ken Wilber e que valorizo é o de "Hólon".  A idéia de que os sistemas não existem em função de algum nível específico apenas, mas podem, devem, e talvez sempre tenham necessitado ter validade e sustentabilidade por si próprios, em todos os níveis perceptíveis.  Ao mesmo tempo, não deixam por isso de fazer parte de estruturas maiores, nem de ser compostos por sistemas menores.

Do meu ponto de vista é simplesmente insano não usar alguma variação dessa idéia se queremos realmente que nossos projetos maiores tenham algum significado ou durabilidade.  A alternativa é cair na Síndrome do Lanterna Verde, que nos leva a querer crer que as coisas acontecem simplesmente porque queremos muito sinceramente que aconteçam - uma doença patética, porém típica dessas gerações narcisistas atuais.  E em sua consequência inevitável, a necessidade de graus patológicos de fuga contínua, via drogas e outras doenças.

É por tentar ignorar essa realidade, tão evidente em retrospecto, que criamos muitos dos problemas que lamentamos.  Porque insistimos em querer fazer prédios sem pedras ou tijolos, ou pior ainda, simplesmente esperar de forma muito indignada que tais prédios se ergam sem ser propriamente construídos.  Só que não é assim que as coisas funcionam na prática, na vida real.  As pessoas não querem nos proteger e nos oferecer oportunidades simplesmente porque estamos muito acostumados a acreditar que é o que merecemos.  Criar problemas é de fato criar problemas, e não soluções.  A vida não é generosa com quem se orienta por uma percepção descuidada e caprichosa de suas próprias necessidades em vez de pelos fatos objetivos.

Ou talvez seja mais correto dizer que em contextos sociais como o nosso essa generosidade pode sim ser encontrada, simplesmente porque muito das gerações mais recentes quer desesperadamente acreditar que é assim que se deve viver.  Mas é uma situação artificial, inevitavelmente frágil e instável.  Resulta inevitavelmente em decepções que não são apenas fortes, mas também sentidas com impacto ainda maior porque seus afligidos foram mal orientados e mal preparados para lidar com elas.  Hoje em dia é comum encontrar pré-adolescentes gritando com toda sinceridade que precisam de marcas específicas de celulares, roupas e tênis.  E isso, sinceramente, é falta de vivência necessária em lavar louça, cozinhar sua própria comida, enfim, em manter contato com verdadeiras necessidades e suas implicações.  Quem cresce aprendendo que a solução para a frustração é gritar e chorar mais alto ainda vai acabar por gritar e chorar por toda a vida, com resultados cada vez mais questionáveis.



Escrito por Luis Dantas às 11h55
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Reflexão sobre as contradições

Certa vez me disseram que um grupo de Soto Zen específico tinha por hábito procurar trabalhar com a terra durante seus retiros. Um bom hábito, como vim a concluir depois. O Budismo Zen está completamente correto em querer manter seus praticantes em contato inequívoco com as situações concretas e cotidianas, e todos devem procurar formar uma apreciação direta dos desafios e significância da prática da agricultura.

Afinal, todas as pessoas comem, e quem não produz seu próprio sustento está em última análise se beneficiando do trabalho alheio para sobreviver. Não há vergonha em depender dos outros, mas há tolice em se orgulhar de não compreender ou respeitar as próprias estruturas que nos sustentam.

Minha criação foi muito isolada e ocorreu em completa revelia de minhas vontades ou vocações pessoais, por isso demorei muito a perceber o quanto as pessoas costumam ser focalizadas em suas próprias circunstâncias imediatas e falhar em perceber contextos maiores. É de fato muito fácil se acostumar à segurança ou ao privilégio. É muito humano criar quase instintivamente uma variedade impressionante de "necessidades" de graus diversos de intensidade e legitimidade e crer piamente que tais necessidades são reais e precisam ser atendidas. Nossos sensos de identidade são tão frágeis quanto gulosos.

Muitas vezes me perguntou como seria se eu tivesse escolha. Teria sido tão fácil para mim perceber essa fragilidade e desenvolver aversão a ela? Eu teria aprendido a ver com certo humor a idéia de que certas pessoas fazem questão de se apresentar como sendo "autoridades" ou "doutores" mesmo quando os fatos tornam impossível ignorar que são apenas mortais perfeitamente falíveis, não raro medíocres e paupérrimas até? Qual teria sido a chance de eu querer ser mais um a seguir o caminho acomodado, se ele me tivesse sido permitido?

Nunca vou saber ao certo. Mas não posso negar que essa negação me proporcionou uma perspectiva rara, embora desconfortável, da qual tenho hoje considerável apreço e orgulho. Paradoxalmente, ser consistentemente negado apoio, reconhecimento ou segurança me fez perceber que muito dos caminhos mais populares é ilusório ou destrutivo. Não é coincidência que eu tenha uma posição radical contra o uso de drogas e ainda hoje me surpreenda de essa ser uma posição minoritária.

Em anos recentes a percepção da fragilidade das expectativas sociais me tem vindo com enorme clareza e intensidade. Vejo as pessoas tendo filhos e simplesmente acreditando que isso não terá consequências ruins. Vejo alunos comemorando que não estão precisando aprender o básico para passar de ano no ensino básico e médio. Vejo profissionais e pais de família reclamar do que basicamente é pouco mais do que a falta de vontade da sociedade maior em lhes prestigiar. Vejo pessoas que são privilegiadas com um grau de proteção que não compreendem nem merecem insistir consistentemente em demandar impacientes por ainda mais privilégio e proteção, talvez exatamente porque em algum nível muito oculto estão conscientes de quão pouco podem confiar no que insistem afirmar ser "seus direitos" e de quão pouca esperança tem de sequer compreender algum dia como poderiam fazer para merecer tanto sacrifício alheio.

De fato, há uma relação muito curiosa e problemática entre os comandantes e os comandados. A natureza humana aspira naturalmente a testemunhar eventos grandiosos e influentes. Causá-los se possível, sim, mas apenas testemunhá-los se necessário. É um paradoxo que remonta ao ideal clássico do herói grego, que ao mesmo tempo que inspirava à população reflexões sobre a grandeza e permitia um sentimento de conexão com esta, se via em uma situação tão exagerada e insustentável que necessariamente se via destruído ao final. É a mesma situação em que se vêem hoje, entre outros, os nossos políticos, que são odiados e desprezados ao mesmo tempo em que esperamos que sejam algum tipo de transformadores sobre-humanos embora essa expectativa seja claramente absurda.

O mito do herói para ser odiado e cobrado é muito forte em nossa cultura. Mas não creio que seja uma tendência a que convém nos render. Cultivar maturidade, responsabilidade própria e lucidez faz muito sentido e é provavelmente necessário. Corremos o risco de nos intoxicar com o apego a mitos e às expectativas que projetamos neles.



Escrito por Luis Dantas às 11h29
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