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Luis Dantas


Crença não é Fé, ou o que a Religião Deveria Ser.

Quando era pequeno, eu não entendia por que se falava da existência de Deus e da crença nessa existência como se fossem coisas importantes, ao mesmo tempo que se agia como se fossem apenas maneiras convenientes de mudar de assunto e criar um senso de união (mesmo que esse fosse um senso de união frágil e superficial).

Com o passar do tempo, e depois de passar pela curiosa experiência de ser catequisado e prestar Primeira Comunhão contra a minha vontade (de fato, sem sequer ser consultado, certamente porque sabiam que eu teria me recusado) e sem qualquer base significativa de sustentação filosófica ou religiosa, constatei que a minha impressão de criança não estava equivocada, embora me faltassem na época elementos e condições para desenvolvê-la; esta cultura em que vivemos realmente valoriza a crença pela crença, e a proclamação de fé como um atalho (indevido, como todos os atalhos) para o consenso.

Ora, proclamar fé não é o mesmo que tê-la, e a crença nunca deixou de ser uma caricatura grotesta e inútil desta.  Teimar em afirmar que se crê em Deus (por exemplo) é, em si, um ato completamente desprovido de todo e qualquer valor religioso ou moral. 

Entenda-se bem, não estou dizendo de forma alguma que seja errado crer em Deus, até porque não acredito que seja.  O que acontece, porém, é que se trata a crença em si como se fosse de alguma forma louvável, coisa que não é e não poderia jamais ser; a crença em Deus é um ato religioso, um ato pelo qual o praticante deve assumir a responsabilidade e cuidar para que não tenha consequências indesejadas.

Crer em Deus não é em si um ato transcendente, nem louvável.  De fato, não serve para nada a não ser como parte da construção de conceitos e linguagem para conteúdos sutis de cada pessoa.

Se esses conceitos e essa linguagem são de alguma forma verossímeis; se apresentam coerência interna; se são assimilados e empregados de forma moralmente útil, ou pelo menos defensável; e até mesmo se são realmente compatíveis com a estrutura social e psicológica da pessoa que os adotou, são questões completamente distintas e muito mais importantes do que a da eventual "verdade" (inescapavelmente subjetiva) dessa crença.

No fim das contas, se, em quantos e em quais deuses alguém crê é uma questão completamente pessoal, que pouco ou nada interessa para outras pessoas.  O que tem significado religioso verdadeiro não é, e jamais poderia ser, a crença no "deus certo", e sim a forma como eventualmente se utiliza a inspiração (que pode vir dessa crença ou de outras fontes que nada tem a ver com a idéia de Deus) para construir e cultivar valores, atos e atitudes morais e mentais construtivas, úteis, significativas na realidade de nossa existência interdependente e atrelada a uma série de considerações sócio-econômicas e ecológicas. 

A religião não se constrói com crenças, apenas se vale delas - e mesmo assim, apenas enquanto não consegue instrumentos mais sólidos e confiáveis.  O que sustenta de fato a religiosidade, muito pelo contrário, são as atitudes, escolhas, decisões, metas e posturas de vida.  Como bem ilustrado em vários trechos do Evangelho de Lucas da tradição cristã, o que importa é o que se faz, não aquilo em que se acredita.

É válido se inspirar no Deus de Abraão, ou em algum outro, ou em nenhum, para orientar posturas religiosas.  Mas nem por isso são as posturas de vida que sustentam e validam a nossa existência religiosa, em vez de uma divindade cuja própria existência é na melhor das hipóteses duvidosa.



Escrito por Luis Dantas às 15h38
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Aproveitando o momento, eis um link descrevendo como se faz Cama de Gato:


http://www.alysion.org/figures/catcradle.htm



Escrito por Luis Dantas às 19h31
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