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Luis Dantas


A Trégua do Natal de 1914

Como se sabe, em 1914 o assassinato de um Arquiduque foi a causa imediata de um conflito impulsionado por alianças políticas entre orgulhosos Impérios que mal imaginavam estar decretando seus próprios fins - a Primeira Guerra Mundial.  Um evento frequentemente subestimado devido ao impacto ainda maior e mais horrendo de seu pós-abalo, a Segunda Guerra Mundial.

A Primeira Guerra Mundial é, com razão, associada ao Fim dos Impérios, pois durante seu percurso tiveram fim o Império Turco-Otomano, o Império Russo, o Império Germânico e o Império Austro-Húngaro.  O Império Britânico sobreviveu nominalmente, e os fantasmas dos demais não estiveram ausentes nos dramáticos conflitos posteriores - mas sem dúvida os enormes e insensatos sacrifícios cometidos em nome da suposta grandeza dos Impérios da época passaram a ser questionados de uma forma visceral e decisiva desde então.  Foi um período aterrador da história européia e ocidental - mas foi também, por quase exatamente os mesmos motivos, uma oportunidade particularmente rica de descoberta de valores e propósitos verdadeiros.

Talvez nada ilustre melhor essa verdade do que a quase lendária (embora verídica e bem documentada) Trégua de Natal de 1914.  Em um conflito que frequentemente envolvia confrontos em trincheiras, onde homens geralmente bem-intencionados e obedientes se viam obrigados a matar-se reciprocamente em nome de suas respectivas nações na fútil tentativa de conseguir mais alguns metros de fronteira por mais algum tempo (e não raro, como nas batalhas de Somme e Verdun, tinham de medir seus avanços em vidas por centímetro, apenas para ver todo o seu trabalho desfeito depois de algum tempo e ao custo de outras tantas vidas), não era nada raro ter quilômetros de fileiras de soldados entricheirados a apenas algumas poucas dezenas de metros de seus supostos inimigos.  Ambos os lados estavam sob risco de morte a cada vez que levantavam as cabeças, ordenados a manter o posto por tempo indeterminado, e literalmente mergulhados na lama e cercados de cadáveres que apodreciam sem poder ser enterrados.  Pior ainda, ambos os lados estavam também obrigando um ao outro a ficar nessa exata situação miserável, conscientemente.

Quero crer que é apenas humano querer interromper um impasse tão completamente insensato.  E de fato, foi exatamente essa a decisão que os oficiais de baixo escalão presentes na frente ocidental acabaram por tomar, várias vezes.  Um dos primeiros episódios do gênero, mas de forma alguma o único, foi a famosa Trégua de Natal de 1914, onde tropas Britânicas e Germânicas presentes na Bélgica decidiram espontaneamente promover a paz que o então Papa Bento XV não havia conseguido decretar.

Infelizmente, o exemplo não foi seguido pelos escalões superiores.  As pressões políticas e as vaidades nacionais eram ainda excessivamente fortes, e os soldados foram obrigados a retornar, relutantemente, a se matar em um conflito que nunca teve muita razão de ser.

Mas sempre fica a doce lembrança do momento em que os cães de guerra se cansaram de ser apenas instrumentos de morte e decidiram lutar ardentemente pela paz da forma que realmente funciona.

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Escrito por Luis Dantas às 01h41
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