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Uma análise sobre o impacto das Wikis
Escrito por Luis Dantas às 19h50
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Outro motivo por que coisas ruins acontecem com pessoas boas
Alguns meses atrás tornou-se possível aos cidadãos da Califórnia casar-se legalmente com parceiros do mesmo sexo. Entre os que o fizeram está o ator George Takei, que representou o personagem Sulu de Jornada nas Estrelas.
No entanto, não há consenso sobre quão válidas de um ponto de vista legal são essas uniões. Principalmente depois que uma iniciativa chamada de "Proposta Oito" foi votada e aprovada, poucos meses depois. A Proposta Oito, em resumo, afirma explicitamente que um casamento só pode acontecer entre um homem e uma mulher, impedindo a realização de novos casamentos legais no Estado da Califórnia e pondo em dúvida a situação dos matrimônios de mesmo sexo já realizados. A disputa pela votação da Proposta Oito foi acirrada, e inicialmente chegou a parecer que não seria aprovada.
No fim, porém, a proposta foi aprovada, para enorme decepção da esperançosa comunidade de homossexuais, bissexuais e simpatizantes da Califórnia e de muitos outros Estados norte-americanos. Inclusive de outros que estão mais longe, como eu.
A realidade norte-americana é bem diferente da brasileira - e a mentalidade da população, mais ainda - mas neste assunto em particular me parece adequado trazer a discussão para cá.
Um pouco de contexto: o sistema legal norte-americano é bem mais descentralizado do que o brasileiro. Lá juízes e delegados são eleitos pelo voto popular da mesma forma como vereadores são eleitos aqui, e medidas com efeito legal como a Proposta Oito não partem necessariamente de algum órgão burocrático governamental; podem ser iniciativas da própria comunidade, como me parece ter sido o caso. A Proposta Oito teve, naturalmente, muito apoio da parte de segmentos mais conservadores da população norte-americana. A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, mais casualmente conhecida como SUD ou vulgarmente "Mórmons", tornou-se alvo constante de críticas porque muitos de seus filiados apoiaram a medida e financiaram a campanha indiretamente. Alguns de seus dirigentes declararam publicamente que os Mórmons eram livres para votar como achassem melhor, embora ao mesmo tempo anunciassem uma clara preferência pela aprovação da medida.
Diretamente atingida, a comunidade GLS naturalmente não deixou de se mobilizar, e em grandes números. O confronto entre os dois lados tornou-se por vezes apaixonado e levou a algumas situações de hostilidade que ainda causam muita controvérsia e mal-estar. Alguns Mórmons consideram excessiva e violenta a reação GLS. Não vou entrar no mérito de quão justificada é essa queixa, até porque não me sinto bem informado a respeito. Em vez disso, apresento baixo a tradução de uma postagem minha sobre o assunto no fórum religiousforums.com
Apesar de saber que a posição oficial da Igreja dos SUD sobre o assunto permite que os membros votem como quiserem, me surpreendi pelo grau de hostilidade geral aos gays que há entre eles. Isso me deu um bocado sobre o que pensar nos últimos meses.
E acho que agora tenho uma compreensão melhor sobre a perspectiva deles. Em termos gerais, a Proposta Oito era, do ponto de vista homossexual, uma tentativa de reduzir os seus direitos civis. Mas alguns conservadores, inclusive muitos Mórmons e aparentemente também seus líderes, se deram o trabalho de inclusive criar tal documento e apoiá-lo. E são tantos que, surpreendentemente, ela de fato foi aprovada.
Como isso pode ter acontecido? Deixando de lado as primeiras impressões, só pode ser porque a despeito de todo o choque que a Proposta causa, muitos de seus proponentes estão agindo com motivação sincera, e não necessariamente por ódio ou malícia.
Passei um bom tempo tentando entender essa situação, até que decidi extrapolar a partir de minha experiência com membros da SUD (alguns parentes distantes são membros, e a minha primeira namorada era uma Mórmon dedicada. É também uma moça graciosa em todos os aspectos, diga-se de passagem :) . Seus argumentos (nota de esclarecimento: os dos foristas pró-proposta oito que postaram no religiousforums.com) contra o casamento de mesmo sexo eram, talvez naturalmente, bons indícios (ainda que incompletos) para indicar sua forma de pensar.
Concluí portanto que muitos membros da SUD e outras pessoas, que por conveniência imediata chamarei aqui de "conservadores sociais", de fato sentem-se ameaçadas e incomodadas diante da idéia de casamentos de mesmo sexo. Para nós, trata-se de atualizar a lei para que reconheça devidamente um direito natural. Mas para eles é algo completamente diferente.
No início eu considerava a idéia de oferecer aos homossexuais algum tipo de união civil com "os mesmos direitos" de um casamento um insulto e uma ofensa. Ainda penso assim. Mas os que fazem essa proposta agem, muitas vezes, motivados por ingenuidade e não por malícia.
Os Mórmons se esforçam bastante para cultivar e proteger um modelo de família bastante tradicional; esse é um valor muito importante para eles, embora não estejam necessariamente escolhendo as melhores formas de protegê-lo. E em sua origem, é de fato um modelo muito belo. É fácil esquecer hoje em dia que há um motivo para que a mentalidade de procurar se casar bem cedo, ter uma relação de exclusividade dedicada e criar filhos juntos tenha sido tão difundida por tanto tempo; seu atrativo é forte e saudável, pelo menos quando as condições adequadas se apresentam.
Claro que também há uma boa razão para que um modelo aparentemente tão perfeito tenha sido praticamente abandonado desde a década de 1960. Muitas razões, aliás, e não foram suficientemente compreendidas ainda. Destaca-se entre elas o desejo de preferir a felicidade em vez do compromisso quando é preciso escolher entre um ou outro. Não são muitas as pessoas que tem como meta de vida o divórcio ou a vida de maternidade ou paternidade solteira - e, sinceramente, é em algum grau doentio ter tal tipo de meta - mas a verdade nua e crua é que há muitas uniões que não vale a pena tentar salvar.
Eu não apóio e não poderia jamais apoiar o tipo de discriminação que iniciativas como a Proposta Oito representam. São iniciativas destrutivas, e me incomoda muitíssimo vê-las sendo levadas a sério, ainda mais quando chegam a tomar uma forma concreta e se inclusive votadas. Ao mesmo tempo, vejo muito benefício em tentar entender a perspectiva e as motivações dos que apóiam essas iniciativas. Benefício tanto direto quanto indireto, pois essa compreensão permite a construção de melhores estratégias para nos defendermos da discriminação e de suas nefastas consequências. Me escandaliza e deprime ver gente falar tão casualmente de homossexuais como se fossem algum tipo de criatura exótica que decidiu seguir "caminhos sombrios". No entanto, apesar de verdadeiramente repulsivas, essas atitudes são consequências diretas (ainda que muito equivocadas) de um desejo de cuidar de valores sociais e morais que são, sim, preciosos.
Fico por vezes perplexo. Sério. Mas no passado eu já tive expectativas altas a respeito de outras pessoas, da mesma forma que elas também tem. Meu processo pessoal de desilusão com as outras pessoas foi bastante dolorido. Custei a aceitar que tantas pessoas estejam tão distantes dos mesmos valores que garantem ser fundamentais, e custei a aceitar que tantas pessoas sejam simplesmente cínicas. Não posso censurar os membros da SUD de forma alguma por seu desejo de proteger valores que eu próprio gostaria de ver melhor preservados. Chega a ser inspirador ver esse objetivo neles.
Ou seria, pelo menos. Seria, se esse objetivo não os levasse por vezes a desrespeitar tão diretamente a dignidade e os direitos de pessoas que não se ajustam nessa visão de mundo. Só posso imaginar que alguns deles realmente acreditam (por exemplo) que homossexualidade é uma escolha consciente, e que portanto os homossexuais "merecem" o que lhes acontece. Eles estão errados, claro, mas só posso imaginar que acreditem nisso; seria preciso ser muito monstruoso para magoar tanta gente, tão seriamente e ainda por cima mentir descaradamente sobre os motivos. Eu simplesmente não acredito que haja muita gente assim.
No meu entender, a hostilidade que os Mórmons e outros conservadores sociais tem pelos homossexuais é um lamentável erro, um erro bastante sério e injusto. Mas hostilidade vinda do outro sentido, de liberais ou homossexuais e dirigida a conservadores, não é muito melhor. O melhor a fazer é, quase certamente, dedicar-nos a uma discussão séria e honesta, amparada por um esforço de relações-públicas amistoso, que exponha sem agressividade os motivos e benefícios para o reconhecimento dos casamentos de mesmo sexo. Não éum crime ser homossexual, e não é uma falha moral buscar uma família tradicional. Mas é tolice (ou pior) negligenciar a necessidade de explicar os motivos para os muitos que não conseguem aceitá-los com serenidade. As pessoas não podem deixar de sentir desconforto, medo e eventualmente hostilidade diante daqueles que exercem estilos de vida que contrastam com os seus próprios, a não ser que algum esforço seja feito para mostrar respeito mútuo e pelo menos tentativas de compreensão e diálogo desarmado.
Some will say that it is a private matter, and no need for reaching out should exist. I respectfully disagree. Families are the brickstone of society and a very high social priority, in this much I wholeheartedly agree with social conservatives. Call me naive or silly - I probably deserve it, even - but the truth of the matter is that I felt shocked for more than a little while when I first came to understand how far apart the appearances and the reality of our society (well, I'm brazilian, but it is perhaps not too much to extrapolate in this way) went in the matters of family, sex and marriage. It is probably naive to want to believe in some sort of certainity that men and women will want to marry and raise children with each other, and that they will be happy and motivated at it. But it is often quite painful to realize that facts do not much cooperate with such a dream. Also, and this is often overlooked or unduly generalized, people who are hurt by unhappy circunstances may and often do spread such unhappiness in various ways, not always against their own wishes. There _are_ people who are both "unconventional" in the broad sense and dangerous or unbalanced. They're far less the rule than some conservatives would want to believe, however.
É vergonhoso supor que mães (ou pais) solteiras, divorciados ou homossexuais sejam "menos honrados" de alguma forma. Mas também é vergonhoso deixar de entender que, em sua origem, a reação conservadora é uma reação de medo, praticamente pânico, e só pode ser evitada de forma eficaz através da recusa em alimentar os motivos desse medo. Os não-conservadores devem se organizar, se preparar, tornar-se sábios e hábeis a ponto de alcançar uma comunicação eficaz e desarmada com os conservadores e com isso convencê-los a oferecer o respeito, o reconhecimento de que são pessoas plenas e dignas. É bem verdade que os próprios conservadores frequentemente se recusam a cooperar, mas a necessidade de convencê-los não deixa de existir por isso.
Escrito por Luis Dantas às 08h36
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