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Luis Dantas


(Adaptado de uma postagem no fórum do Clube Cético):

O semestre de Antropologia que cursei na UnB me ensinou que muitas comunidades passam pelo processo de começar a perceber o mundo e formar seus conceitos a partir de si próprias e só depois começar a expandir sua concepção e percepção de mundo. É por isso que em muitas línguas a palavra para "gente" não é realmente distinta da palavra para "conterrâneo": porque inicialmente eram uma e a mesma coisa e só aos poucos foi surgindo a necessidade de reconhecer que as fronteiras do mundo não eram as mesmas da aldeia. É um processo tão gradual que por vezes a linguagem tenta se adaptar mudando o sentido das palavras em vez de criando palavras novas.

Outro exemplo é o mito de criação do Xintoísmo, que fala sobre dois Kami pingando sete gotas de cera no oceano para formar as sete ilhas japonesas... e ponto final. O resto do mundo aparentemente nem foi percebido pelos Kami, que dirá criado por eles.

Diante desses exemplos, não parece exagero supor que o que hoje é entendido como sendo a "idade do mundo" era originalmente a "idade do mundo que interessa a um bom cidadão do Povo de Deus conhecer". Até hoje o povo judaico fala em "ciência Goy (não-judaica)", e outras crenças não são tão diferentes. Me parece que por muitos séculos simplesmente não havia tanta necessidade de reconhecer a diferença entre crença e ciência, porque a ciência foi de fato muito incompleta, especulativa e, principalmente, pouco divulgada e pouco aplicada até algum momento entre a Idade Média e o Século XIX. Mas o avanço da pesquisa, do método e da aplicação científica chegaram a tal ponto que começou a ficar evidente uma desconfortável obsolescência do que até então era "verdade inquestionável" em muitas comunidades, e a tradição perdeu poder e credibilidade diante do surgimento de novas e melhores fontes de verdades, respostas e elementos confiáveis para as decisões cotidianas.

No entanto, ciência não é religião e não serve de sustentação para ela. E a religião serve não apenas para fornecer respostas concretas e imediatas para situações cotidianas (papel que até certo ponto foi tomado pela ciência, e que algumas tentam desnecessariamente e indevidamente tomar de volta) mas também para oferecer e complementar a sustentação emocional, antropológica e filosófica dos seus praticantes.

Religião tem um propósito, um plano de metas intrinsecamente ligado à sua comunidade, coisa que a ciência geralmente não tem nem tenta ter. Por isso ainda há um lugar para a religião nos tempos atuais, mas não o mesmo lugar de antes, não mais como fonte incontestada de respostas fáceis e reconfortantes e de consensos pelo menos aparentes.

Não deixa de ser triste ver tantos religiosos perdendo tempo e energias com tomadas de posição inúteis e sem chance de "vitória" como a oposição à Evolução das Espécies (lamentável exercício de tentar provar sua fé insistindo em duvidar da realidade dos fatos) ou a reafirmação de sua crença na existência de Deus e no Livre-Arbítrio (dois conceitos que são apenas nomes sem um significado claro). Há quem pareça acreditar sinceramente que esse seja um esforço para "resgatar a fé perdida", mas essa não é uma fé que se deva tentar ter, muito menos "resgatar"; teimar em acreditar em dogmas sem valor moral e que são contraditos pelos fatos não é um ato religioso, é apenas teimosia tola. Não é um exercício de alimentar a própria fé, e sim de corrompê-la e desvirtuá-la. A verdadeira fé não tenta ser maior do que os fatos, mas pelo contrário, vive em harmonia com estes. O verdadeiro religioso não se acha maior do que os questionamentos, nem tenta fugir destes. Pelo contrário, arma-se da verdadeira fé para transpor as distâncias que seu conhecimento não permite cruzar de outra forma; tomado não pela audácia de querer ser maior, mais digno ou (com o perdão da expressão obscena) "mais evoluído" do que os demais, mas pela humilde coragem de quem percebe que é preciso agir neste mundo, tomar decisões que nem sempre são bem conhecidas ou seguras, mas que tampouco devem ser evitadas.

Escrito por Luis Dantas às 22h36
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Alívio finalmente

Barack Obama é o novo presidente dos EUA. E com uma das votações mais folgadas que já vi. Uma verdadeira surra.

Uma boa notícia por vários motivos diferentes. :)

Escrito por Luis Dantas às 02h24
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Um artigo da Slashdot lembrando dos cuidados que se deve ter ao considerar resultados de pesquisas publicadas.

Escrito por Luis Dantas às 02h38
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O preço da obediência: o Experimento de Milgram

O Experimento de Milgram é assunto obrigatório nos cursos de Psicologia. Se não se sente à vontade com o texto em inglês, veja por favor a versão em espanhol; infelizmente a versão em português ainda é pouco mais que um projeto sem forma.

O tema do experimento era o efeito das relações de autoridade no comportamento das pessoas. Uma provável influência motivadora foi o julgamento de Adolf Eichmann, uma pessoa controversa que embora tenha sido chamada de "Arquiteto do Holocausto" é considerada basicamente honesta e sem falhas de caráter por muitos. Condenado à morte por Crimes Contra a Humanidade em 1961, insistiu até o fim que estava apenas cumprindo ordens. O episódio inspirou Hannah Arendt a cunhar a expressão Banalidade do Mal.

Praticamente na mesma época, Milgram e seus colaboradores realizaram seu experimento, que reforça as conclusões de Hannah Arendt. Infelizmente, é um fato bem comprovado que as pessoas realmente costumam, na imensa maioria dos casos, cometer atos absurdos, cruéis e destrutivos desde que possam alegar que estavam obedecendo a uma ordem de uma figura de autoridade.

Essa possivelmente foi a lição mais útil e mais amarga da Segunda Guerra Mundial. Tão amarga que até hoje, mesmo quebrada nossa ilusão e nossa ingenuidade, ainda há muitos que relutam em aceitá-la: querendo ou não, o que fazemos tem consequências. Mesmo com algum tipo de autorização externa, a responsabilidade ainda é nossa, as consequências ainda são reais.

Não é coincidência que esses experimentos tenham acontecido depois da Segunda Guerra Mundial e poucos anos antes do movimento Hippie e da resistência à intervenção militar no Vietnã; foi de fato um momento divisor de águas, uma constatação dura, mas necessária, de que não basta querer ser uma boa pessoa, é preciso ousar e ter a coragem de aprender a sê-lo, mesmo diante de pressão e incompreensão externa.

Escrito por Luis Dantas às 08h37
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Criacionismo hoje e no século dezenove

Ainda no Religiousforums.com me veio recentemente o questionamento sobre a diferença entre ser Criacionista na época da publicação de "A Origem das Espécies" e ser Criacionista hoje.

Eu nunca entendi muito bem como o Criacionismo pode perdurar até os dias de hoje, exceto talvez como alegação de que a evolução biológica existe porque Deus assim quis. Mas o tópico do RF me fez perceber que no século XIX a situação era outra. Um Criacionista não era apenas alguém que teimava em desconsiderar fatos biológicos. Era também, e talvez principalmente, alguém que não havia passado pelas Duas Guerras Mundiais e que não havia entendido ainda o quanto o mundo era grande e variado. Principalmente (como a literatura religiosa e psicanalítica da época mostra), era uma época de deslumbramento, confusão e insegurança, em que tudo parecia mais incerto e mais complicado do que era pouco tempo antes. O conhecimento científico começou a aumentar dramaticamente, e a tecnologia também. Nunca mais a vida de uma geração seria muito semelhante à da geração anterior.

Tentando me pôr no lugar de um Criacionista no meio do século XIX, percebo que pode não ser só uma questão de Biologia. A Evolução das Espécies nega implicitamente que haja um Deus com um Plano. Mostra claramente que as espécies e os indivíduos devem viver ou morrer por seus próprios recursos, sem uma Vontade Maior guiando-as ou protegendo-as. Hoje, depois de uma melhor difusão do ensino e das duras lições dos conflitos mundiais, é ainda mais difícil negar que, haja ou não um Deus, na prática nós é que devemos assumir a responsabilidade pelos nossos futuros. Mas imagino que na época parecia uma idéia tão pessimista quanto assustadora.

Escrito por Luis Dantas às 16h55
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Rebeldia, conformidade e religião

Como ateu militante, eu vejo muitas manifestações de aversão e desprezo pela religião. Como religioso e interessado em religiões comparadas, vejo muitas alegações curiosas e muito desconhecimento da parte de religiosos.

Recentemente comecei a postar em religiousforums.com e me lembrei do quanto a perspectiva religiosa brasileira é diferente da norte-americana, mesmo na Internet. Lá quase não se ouve falar de Kardec, aqui quase não se ouve falar de Aleister Crowley. Não se está perdendo muita coisa, em qualquer caso :)

Mais significativamente, lá se leva com mais seriedade a crítica à religião. Não se tenta generalizar críticas ao Cristianismo para outras crenças tão apressadamente. E há mais condição de falar sobre o curioso fenômeno do "caminho da mão esquerda". O fenômeno em si é uma bobagem adolescente, mas as condições que o tornaram possível merecem alguma análise. O que, afinal de contas, levaria alguém a se declarar diretamente oposto ao que supostamente seria uma boa coisa (no caso, as religiões tradicionais?

Acredito que seja, antes de mais nada, uma reação ao sentimento de exclusão. A maioria das religiões "comportadas" tradicionais subestima sua própria função social e supervaloriza as questões de crença e fé. A verdade é que o ser humano é social e não funciona muito bem quando é mais criticado e isolado do que encorajado e integrado. Infelizmente, socialização é uma arte delicada que mesmo em situações ideais não tem resultados garantidos. Pior ainda, muitas pessoas e até mesmo religiões inteiras não conseguiram ir muito além da estratégia de rejeitar os de "fora do grupo" para criar um sentimento artificial de união. O resultado é uma prática religiosa falha e imperfeita, que não raro acaba por encorajar aqueles com quem falha a se afastar para não macular seu próprio sentimento de realização.

A esses excluídos restam muito poucas opções a não ser tentar obter algum benefício de sua própria marginalização. Não é por coincidência que os satanistas tentam definir sua crença como "oposta e complementar" ao Cristianismo a despeito de uma completa falta de evidências e de verossimilitude para essa alegação. Eles estão certos, no sentido simbólico se não no factual. O Cristianismo praticado com descuido e discriminação de fato não pode deixar de criar um sentimento de "orgulho excluído" que é causa e sustentação do satanismo e de outras crenças rebeldes como a Thelema. Na falta de aceitação pela comunidade maior, só resta aos excluídos buscar exaltar seu senso de individualidade e buscar ser felizes como suas misérias individuais permitirem. Infelizmente isso não é mais do que o equivalente espiritual à Lei da Selva; o assim chamado "caminho da mão esquerda" não tem nada de saudável, está mais próximo de uma estratégia de limitação de danos.

Mas com toda a minha falta de simpatia por esses imaturos, tenho de admitir que a responsabilidade maior está na pompa e tolice dos que os excluíram. Falta a muitos que se consideram religiosos a coragem de sê-lo realmente. A acomodação impera e leva pessoas supostamente adultas a fugir como ratos assustados diante da constatação do quanto sua responsabilidade pessoal realmente abrange. Preferem fugir para terrenos confortáveis e alegações vazias. "Entregar a Deus" é uma frase típica, que mostra a vontade de dar de ombros e só se sentir religioso quando for confortável. Nenhum religioso deveria se esconder atrás de escrituras e hábitos quando há problemas reais, no mundo real, que merecem sua atenção.

Escrito por Luis Dantas às 12h50
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Uma idéia para ser apreciada

Najidah é uma organização sediada na Austrália que oferece apoio e abrigo para pessoas necessitades. Eu não costumo ter muita simpatia por organizações de caridade (na minha opinião elas tendem a servir mais para o ego de seus mantenedores do que para o bem de seus assistidos), mas aparentemente a Najidah é diferente, ou pelo menos tem um discurso sólido e bem escolhido.

Seu slogan pode ser traduzido como "Abuso algum é aceitável; cada indivíduo tem o direito de viver em uma comunidade segura". Simpatizei bastante com essa idéia, pois de fato um gargalo significativo em iniciativas assistenciais é o desafio de deixar de ser apenas reativo para tratar das causas da situação aflitiva. Najidah consegue, no mínimo, resumir competentemente a variedade de situações e de áreas de atuação que merecem atenção nesse tipo de iniciativa.

A Wikipedia tem um artigo sobre Najidah, e esta é a página da organização em si (apenas em inglês).

Uma boa leitura e subsídio de reflexão para quem quer fazer uma diferença significativa para quem realmente precisa de ajuda.

Escrito por Luis Dantas às 21h34
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Comentário de filme: "O Procurado"

"Wanted" (nos cinemas brasileiros, "O Procurado") é um filme cuja maior virtude é a sinceridade.

À primeira vista é uma variação de "The Matrix", e de fato os paralelos com o primeiro filme dessa trilogia são impressionantes. Suspeito porém que em sua maior parte esses paralelos sejam inconscientes ou mesmo acidentais, pois semelhanças de estilo à parte, os dois filmes tem propostas muito diferentes. Enquanto "Matrix" era um filme de ação com doses generosas de pretensão, "Wanted" é um filme impressionantemente honesto quanto à sua proposta: vingar o amor próprio de quem se sente esmagado pelas concessões que o cotidiano nos pede. É o filme em que, tanto literal quanto figurativamente, não sabemos o que estamos fazendo, mas nem por isso Angelina Jolie deixa de vir repetidamente nos tomar sob sua proteção.

Estilisticamente é um filme muito bem cuidado. O roteiro, porém, nunca chega a deixar a puberdade: visceral, intenso, confiável dentro de seus próprios parâmetros, mas ao preço de estar aprisionado em um individualismo extremo e imaturo. A história vive o "eu" e o "momento presente" do início ao fim, a ponto de criar furos óbvios e desconcertantes na trama. Talvez esse não seja um problema, porque a trama é apenas uma ferramenta descartável para levar o protagonista de um momento de emoção intensa para o próximo.

Não é coincidência que a atriz principal (que não chega a ser co-protagonista) seja a mesma dos dois filmes de Lara Croft: este é definitivamente um filme de realização de fantasias mal resolvidas. Exceto pelo protagonista, todos os personagens, absolutamente todos, são bastante secundários e descartáveis. Fox, a personagem de Angelina Jolie, diferencia-se apenas pelo tempo de câmera, pois seu desenvolvimento é mínimo, até mesmo vestigial. Ela é uma ferramenta para a expressão das fantasias de Wesley, o protagonista, e só recebe o pouco desenvolvimento que tem porque é vista por muito tempo. Em momento algum os outros personagens tem alguma intenção que não seja simplesmente atacar ou proteger Wesley.

Poderia ter havido algum questionamento interessante a partir da motivação dos membros da Fraternidade a que Wesley é apresentado no início do filme, e principalmente da curiosa maneira como ela escolhe seus alvos. De fato, deveria haver tal questionamento, pois esse é um ponto central da segunda metade e principalmente do final do filme. Mas a proposta é outra, por demais individualista para comportar tais questionamentos. Tudo o que interessa é acompanhar a trajetória de Wesley de um frustrado sem qualquer motivação ou amor-próprio até alguém que consegue e ostenta a capacidade de controlar a própria vida em um grau tão exagerado que chega a ser contraditório.

Narcisista? Definitivamente. Mas sem qualquer ilusão a respeito, o que não deixa de garantir um certo grau de respeito diante da ousadia envolvida. O mais interessante e inovador porém é a tese vagamente teísta que o filme apresenta de forma clara, inequívoca e, apesar de tudo, secundária. Wesley é, muito literalmente, o protegido de Deus (embora o filme o chame de "Fate", Destino), agraciado com o direito inato de pensar apenas na própria segurança, conforto e vaidade, embora a princípio não tenha os meios para tal. Significativamente, no início do filme ele é apresentado como uma pessoa acostumada a ceder continuamente e em um grau além de qualquer parâmetro razoável, enquanto que no final ele não faz concessão alguma a quem quer que seja.

É como uma paródia da Jornada do Herói. Um paródia em que o trajeto não leva à virtude, nem ao sacrifício em prol de uma Causa Maior, mas em vez disso à auto-aceitação radical e sem concessões. Wesley parte de um ponto em que não sabe reconhecer seu próprio valor como pessoa para o extremo oposto, onde o único fato significativo da realidade é a sua própria existência e vontade. Todo o resto são brinquedos para seu entretenimento, ferramentas para entretê-lo e alimentar seu amor próprio. E é bem assim que os roteiristas e produtores (conhecidos na indústria de histórias em quadrinhos por escrever fantasias escapistas do mesmo gênero) queriam, tanto que a cena final tem em destaque uma montagem dos nomes de dois deles.

Em suma, é um filme visceral, que visa antes de mais nada expressar a intensidade da frustração cotidiana e a vontade de ter relevância em nossas próprias vidas. E o faz com tanta intensidade que passa do ponto razoável e cai no exagero oposto. Curiosamente, torna-se por isso um filme extremamente conservador. Não há adolescente que não queira ter pleno controle da própria vida. Ao expressar esse sentimento sem mostrar qualquer desejo de ir além, o filme desaponta. Com um bom elenco e um bom orçamento (e efeitos cinemáticos de primeira), poderia ter ido além do óbvio e universal. Mas simplesmente não quis fazê-lo.



Escrito por Luis Dantas às 13h34
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Uma especulação completamente amadora sobre borderlines e fármacos

O quadro de Transtorno Borderline tem entre seus sintomas clássicos uma forte aversão do afligido ao uso de fármacos psiquiátricos.

Considero perigoso porém ver essa atitude como um sintoma de um mal a ser tratado, pois suspeito que está mais próximo da verdade vê-lo como um reflexo instintivo em busca da cura.

Por que? Porque antes de mais nada, o Borderline é alguém que precisa descobrir qual é o seu lugar no mundo. Não é como se ele não tivesse capacidade de se ajustar às circunstâncias - de fato, pode ser construtivo para ele ter poucas escolhas - mas falta-lhe informação sobre protocolos sociais e graus de relacionamento. Acima de tudo, falta informação sobre em que se pode confiar, por que e até que ponto.

Por essa lógica, fármacos psiquiátricos são das coisas mais destrutivas que um borderline pode usar. Não é que não funcionem. Muito pelo contrário, acontece que funcionam exatamente onde não convém interferir: na relação entre as experiências e interações do borderline com as atitudes e percepções dele próprio e dos outros. Como um borderline tem uma necessidade visceral de expressar suas angústias, e a maior parte do tempo não o faz por consideração aos limites alheios, ele é percebido externamente como instável, dado a manifestações intempestivas, criando um círculo vicioso no qual quanto mais se consegue expressar os sentimentos mais difícil é conseguir a aceitação necessária. E a compreensão incompleta e superficial dos transeuntes fixa-se nesses espasmos emocionais e os confunde com o problema em si, quando muito com um sintoma, quando de fato são (quando suficientemente compreendidos e aproveitados em interações cognitivo-afetivas) os tijolos com que se constrói a cura do quadro borderline.


Escrito por Luis Dantas às 22h28
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Descobri hoje que há um planejamento ambicioso por trás dos transportes públicos de Curitiba, baseado no projeto da Rede Integrada de Transporte.

Planejamento feito por gente capacitada, como era de se esperar, realmente traz boas soluções. Curitiba tem distâncias razoáveis, cobra uma única tarifa a despeito das integrações entre um ônibus e outro, tem terminais de ligação bem localizados e que facilitam o embarque (através de tubos de acesso que entre outras vantagens protegem do vento e da chuva) e o reconhecimento das linhas de ônibus (através das cores dos mesmos).

Em todos e cada um desses aspectos, a cidade supostamente planejada que é Brasília passa vergonha na comparação.

Sonho com o dia em que a opinião pública brasiliense deixará de se conformar com uma situação tão ruim e abandonará a mentalidade míope de "o jeito é eu ter o meu carro", que tantos danos causa à qualidade de vida nesta cidade. Pois a qualidade de vida e a cidadania cooperam entre si e abrem caminho uma para a outra. Depois de viver tanto tempo em Brasília, eu sei bem que há muita gente aqui que precisa de (e provavelmente merece) ambas.

Escrito por Luis Dantas às 21h57
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O que queremos para formação da próxima geração?

A discussão sobre os PCN (programas propostos para o ensino médio) no Clube Cético está muito interessante, recomendo uma visita. Transcrevo abaixo um extrato de uma colocação minha.

Já existem hoje em dia iniciativas como o PEIES e o PAS que reconhecem implicitamente que não é em algum momento mágico perto da obtenção do diploma de ensino médio que se torna subitamente possível ingressar com proveito em uma faculdade. Só que essas iniciativas são simples testes de classificação e seleção, e não propostas educacionais verdadeiras, coisa que exige muito mais planejamento e estrutura.

O que eu estou propondo seria, a grosso modo, que já ao ingresso no ensino médio e pelo menos uma vez por semestre a partir daí, os pais, professores e de preferência o próprio aluno façam uma escolha entre um mínimo de três ou mais alternativas para o seu currículo escolar: cumprir o mínimo necessário para ter permissão legal para seguir adiante, cumprir também com um módulo semestral de um programa de formação técnica e profissionalizante (com matérias como por exemplo língua inglesa, desenho técnico, geometria, álgebra, química básica, física básica, geografia, noções de biologia e genética, informática básica ou noções de contabilidade), ou cumprir com um módulo de formação de cultura geral e preparação para o ensino superior (como filosofia, línguas estrangeiras exceto a inglesa, noções de cálculo, noções de química orgânica, introdução à antropologia e história).

Em essência, seria uma proposta de mudança de avaliação de currículo; em vez de lutar por um certificado de formação no ensino médio e depois por um "canudo", já no ensino médio haveria uma opção consciente e até certo ponto dinâmica entre a formação indispensável para a cidadania básica e o investimento em uma formação mais voltada para o mercado de trabalho ou para a Academia. Já bem antes de concluir metade do ensino médio os alunos passariam a ter perfis de formação nitidamente diferenciados, em um espectro que incluiria no mínimo os "futuros alfabetizados sem ambição nítida" (*), os "futuros profissionais" e os "futuros pesquisadores de nível universitário". As faculdades particulares mais sérias não teriam espaço para os primeiros e em muitos casos nem para os segundos, mas em vez de cursinhos seria possível (até um certo ponto) cursar centros de formação complementar para mudar de um desses três perfis para outro. Os concursos públicos não exigiriam mais simplesmente "ensino médio" a não ser para serviços francamente braçais e sem qualificação. Os certificados de formação superior e mesmo o de formação média nunca se limitariam a simplesmente informar que o aluno concluiu o curso, mas detalhariam quais módulos e com qual aproveitamento e/ou carga horária o fizeram.

De fato, o Curriculum Vitae e o Histórico Escolar passariam a ser basicamente uma e a mesma coisa já desde o início do ensino médio, e prosseguiriam sendo pelo resto da vida.

Essa é uma proposta que considero mais realista - embora, ironicamente, também peça muitas mudanças sérias de mentalidade e postura.

(*) - Sim, "alfabetizado sem ambição nítida" é exatamente o que parece ser: um eufemismo para "desempregado profissional".



Escrito por Luis Dantas às 04h35
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Religião não se discute. Não se discute o bastante para evitar problemas sérios, digo.

Existe um tabu cultural lamentável, que nos condiciona a evitar discutir crenças religiosas.

Infelizmente, as consequências são pessoas perdidas em fantasias nocivas. Ocasionalmente alguma fica tão perdida que não é mais possível fazer de conta. A história documentada no vídeo abaixo é extrema, mas talvez seja também típica de crentes (de qualquer religião) que abusam de suas crenças.

Caseiro mata casal de patrões na Vargem Bonita (Vídeo do Youtube).

Links de notícias sobre o acontecido:



Discuta esta notícia no Clube Cético, onde eu soube do ocorrido. Infelizmente não consigo localizar o tópico exato, mas é recente.

Escrito por Luis Dantas às 08h49
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Uma análise do fenômeno dos cultos a carga



Desde o final do século dezenove observou-se um interessante fenômeno decorrente do choque cultural entre comunidades nativas isoladas e populações modernas com itens tecnológicos (principalmente "aeroportos", veículos e equipamento de comunicação): o assim chamado CULTO A CARGA.


Funciona assim: os nativos, que nunca viram tecnologia nem gente que a tivesse antes, ficam naturalmente chocados e surpresos com os primeiros contatos. Pelo que sei, muitas vezes até supõem que os visitantes sejam algum tipo de ser sobrenatural.


Mas com o tempo acontece do foco se voltar para os estranhos objetos que esses visitantes tem. Na falta de familiaridade com o conceito de tecnologia, não é difícil acontecer da comunidade nativa se convencer de que os objetos são itens mágicos que funcionam porque são favorecidos por algum tipo de vontade sobrenatural. Ocasionalmente um "aeroporto" desenhado ou construído no chão parece ter atraído um avião cheio de carga, e a percepção de relação causal é reforçada.


A consequência é que nasce o desejo de ter seus próprios objetos de poder; os nativos começam a fazer itens de madeira e penas, imitações de rádios, caminhões e aviões. Se não funcionam, paciência, o remédio é insistir até funcionar.



Pensamento Mágico



A força que impulsiona o fenômeno do Culto à Carga é chamado de PENSAMENTO MÁGICO, o "querer acreditar". Como qualquer outra comunidade, os nativos das Ilhas Fiji de 1885 (onde o fenômeno foi documentado pela primeira vez) e os demais praticantes do Culto à Carga (inclusive a Ilha de Tanna, em Vunuatu, onde até hoje persiste o culto a John Frum) tem dificuldade em aceitar as incertezas de seu futuro; uma vez cientes de que existem cargas com itens tecnológicos interessantes, eles querem saber como fazer para conseguir tais itens. E se a explicação é desencorajadora ou complexa demais para ser aceita, não se deixam abater; em vez disso simplesmente fantasiam mecanismos que lhes dêem a perspectiva de conseguir o que querem, mesmo que para tal tenham de duvidar das explicações das próprias pessoas que lhes trazem a carga. Assim funciona o pensamento mágico - procurando relações de causa e efeito onde elas podem não existir, e negligenciando ou até mesmo desprezando deliberadamente a responsabilidade de testar e provar essas relações. Não é uma busca pela verdade, e sim pelo conforto emocional.


Versões modernas



O mais interessante desse fenômeno é o quanto ele se parece com certos mecanismos sociais que acontecem entre nós "civilizados". Não é tão diferente do que eu chamo de "culto ao trampolim", por exemplo - a mistificação de situações, pessoas ou rituais para atender à esperança de que eles permitam o acesso a algo que se deseja muito. É muito comum na nossa cultura, onde a ascensão social e a segurança financeira são tão valorizadas e por vezes parecem tão inalcançáveis.

Messianismo



Algumas vezes se atribui parcialmente o fenômeno do Culto à Carga à influência de proselitistas cristãos. E, de fato, é notável o paralelo entre a fé dos cultistas que aguardam pela carga "prometida" e a postura de muitos cristãos e muçulmanos - ou, em grau menor, adeptos de outras religiões - de aguardar pela "recompensa merecida" por sua "fé". Talvez não seja coincidência que tantos religiosos sejam tão avessos a qualquer questionamento sobre as premissas de sua crença. O apelo da idéia de que virá alguém para nos oferecer uma vida melhor com certeza é muito atraente em qualquer cultura. Uma variante da mesma postura pode ser vista nas crenças reencarnacionistas.

Análise e causas



Para entender melhor o Culto à Carga e fenômenos similares, uma boa pista é a difusão de uso do conceito; Richard Feynman propôs a expressão "ciência de culto de carga" para descrever a forma de pseudociência que se preocupa não com a qualidade das idéias propostas e de sua comprovação, mas dos rituais e pompa com que elas são apresentadas. O termo também já foi usado na programação de computadores, para descrever código que não tem utilidade real mas é usado por motivos de superstição, de cumprimento de uma receita de bolo sem muita noção dos motivos (e isso acontece com muita frequência; programadores de computador são, via de regra, pessoas que encontram e tem de administrar muita insegurança e até mesmo instruções francamente contraditórias).


Esses transplantes do conceito podem parecer exageros, mas há muitos fatores reveladores presentes em todas essas situações.

  • Uma ansiedade por algo que não se sabe como conseguir

  • Uma necessidade de perspectiva imediata para resolver essa ansiedade, mesmo que essa perspectiva seja pouco convincente ou até mesmo completamente fraudulenta

  • Uma resistência emocional a explicações alternativas que não sejam tão fáceis de entender ou cujas perspectivas de solução não sejam tão imediatas



Quero crer que há também um fator psicosocial presente. As comunidades costumam escolher cuidadosamente seus assuntos de forma a promover um sentido de união e de esperança, o que torna os cultos de carga atraentes.

Desvantagens e riscos



Pode parecer que o fenômeno do Culto à Carga é inofensivo e bem-intencionado e portanto deve ser deixado sozinho. Mas deve estar claro que há perigos bastante sérios envolvidos. O primeiro e talvez principal é a esperança vã; infelizmente muita gente desperdiça tempo, energia e sentimentos enquanto se dedica de boa fé a construir castelos de areia.





Links na Wikipedia:


http://pt.wikipedia.org/wiki/Culto_a_Carga

http://pt.wikipedia.org/wiki/Pensamento_mágico

http://clubecetico.org/wiki/Culto_a_carga



Escrito por Luis Dantas às 02h37
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Pedido de informação

Estou dando forma a um texto que pretendo publicar em breve (possivelmente como um conjunto de postagens neste blog). Para melhorá-lo eu preciso de informação e agradeço se alguém puder me oferecer:

1) Onde consigo algum texto acessível sobre o que vem a ser a assim chamada "Ciência do Direito"? Pode ser em inglês, português ou outra língua que eu possa razoavelmente entender.

2) Onde encontro um bom comentário sobre as idéias de Feyerabend? Principalmente sobre o que ele entender como sendo ciência e o que ele tem a dizer sobre a relação entre ciência e política?

Agradeço desde já!



Escrito por Luis Dantas às 22h39
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Para quem acha que os Estados Unidos podem continuar indefinidamente no Iraque, uma notícia relevante: segundo a Forbes, o custo total dessa guerra (já descontados os lucros com o petróleo capturado) até 2017 pode chegar ao montante nada desprezível de 2 trilhões e quatrocentos bilhões de dólares.

Eu sei que os brasileiros estão acostumados a pensar nos EUA como tendo dinheiro infinito. Mas mesmo para os padrões do governo americano essa quantia é, em qualquer sentido, escandalosa.

Agradecimentos ao blog de Mark Evanier.

Escrito por Luis Dantas às 22h11
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