Histórico


Votação
 Dê uma nota para meu blog


Outros sites
 Fórum Ateus do Brasil
 Emerson Zamprogno
 Lista Sci-Fi Brasília
 Chagdud Gonpa Padma Ling
 Spiral Dynamic
 Ontario Consultants on Religious Tolerance
 Textos selecionados
 Dantas.com
 Confissões de uma Pena
 pensa-ventos


 
Luis Dantas


Filme Recomendado: "If I Stay" (Se Eu Ficar)

"Se Eu Ficar" é uma rara celebração.  Belíssimo filme, eu alguns sentidos talvez melhor, e certamente mais visceral, do que "Diário de Uma Paixão", com o qual partilha uma série de qualidades.  Apesar de ser um filme que não tenta camuflar sua orientação para o público jovem e que usa um recurso narrativo que geralmente afasta meu interesse, é extremamente envolvente, absolutamente autêntico, e extremamente bem escrito e dirigido.  Poucas vezes vi uma ode tão bem construída aos verdadeiros valores familiares, uma homenagem tão gloriosa à necessidade de aceitar o que se tem de bom na vida.

Particularmente felizes são a cena perto do final do filme entre a protagonista e o avô, que pareceria satirizar certo filme de renome se não fosse tão completemente sensível, e uma cena tocante entre mãe e filha em um dos flashbacks.  Honestamente não sei como pode não ter sido incluída entre as citações notáveis do filme no IMDB.

Não por coincidência, é também um filme que nos apresenta constantemente os temas de renúncia e perda irreparável.  Um dos assuntos mais importantes da história é a sutil mas terrivelmente dolorosa constatação da protagonista de que chegou naquele momento da vida em que a inocência tem de ser posta de lado e as escolhas adultas são inevitáveis.

Absolutamente recomendado.  De pé.  Aplaudindo e chorando.

 



Escrito por Luis Dantas às 00h00
[] [envie esta mensagem] [] [Print it in Moleskine MSK format]



The Hero Myth and the Sin of Hubris;
or, On Why We Must Seek Balance


I have come in recent months to feel that much of humanity's drama comes from the conflict between the need for free expression of the individual's desires and the opposing need for security by way of belonging to a greater, stronger, safer group.

More recently I have also wondered whether moral responsibility isn't ultimately given by others, instead of being an inherent or inate property of the individual.

I have come to feel the reality of this world is such that there is no such thing as truly "having" moral rights; instead, we exist in such a way that allows us to give and enjoy moral gifts that can be given from one person to another, but not to oneself (at the least, not preferably, easily and safely).  Moral space is created by others so that we may enjoy it, and exist in it.

We do, of course, have moral duties.  Two main categories of such exist.  There are those related to the need (and a need it is) of properly showing acceptance for the moral gifts that are granted to us by those that love us and attaining joy from those gifts.  And then there are those that relate to the complementary and even more urgent need of express our gratitude and attempt to deserve those gifts by contributing to the flow of good will, by heartfully and freely give others moral gifts of our own.

To give a moral gift, one must find it in oneself to be caring enough to sincerely want to dedicate a bit of his or her time and attention while also feeling unhindered by that effort.  It takes love. Or perhaps rather, it takes the expression and nurture of the love one previously received.

It is definitely the case that such an effort is bound to eventually return to us - the more indirectly the better - but that can't be our conscious, main motivation.  Love must be freely given.

It has been said that the tragic flaw of our time is that it lacks heroes.  But maybe that is not quite the case.  Maybe, instead, what we truly resent is far less the lack of larger-than-life heroes (which, by the classic Greek definition, implies their eventual fall into disgrace and tragedy) than the lack of a silent, discreet, unsung and unnoticed multitude of "small heroes", people who simply choose to be respectful, loving, caring and constructive without even noticing it, on a continuous and consistent basis.  People who enable, love and encourage each other all the time, and end up emotionally solid enough to dare to care for others outside their immediate circle and keep expanding it.

Such, I have come to feel, is the way by which true communities are born.  And that is, as far as I can tell, the only functional way of making it so that communities can go beyond mere survival and actually live and thrive.  Most of all, it is how they can be worthwhile, because trusting and meaning well will come to them spontaneously, constantly, consistently and without effort.



Escrito por Luis Dantas às 17h00
[] [envie esta mensagem] [] [Print it in Moleskine MSK format]



A Teoria do Grande Homem

Aprendi ontem que Thomas Carlyle propôs na década de 1840 a "Teoria do Grande Homem", segundo a qual os eventos importantes da História são determinados pelo impacto de "Grandes Homens" ou "Heróis".

É uma tese não de todo surpreendente.  Fiquei feliz em aprender também que a contestação veio relativamente cedo, e gratificado (talvez ironicamente) em saber que um dos primeiros críticos sérios veio a ser Herbert Spencer, a quem se atribui também a alcunha da infeliz expressão "Darwinismo Social".

É interessante contrastar as duas idéias, e considerar a época em que ocorreram.  Talvez nenhum século tenha sido tão conturbado de um ponto de vista intelectual quanto o século dezenove, a época em que o Eurocentrismo vivia seus derradeiros estertores, em uma lenta e dolorida agonia que criou idéias tão exóticas e desesperadas quanto o Positivismo de Augusto Comte, o Espiritismo de Allan Kardec, e a Teosofia de H.P. Blavatsky.   A cultura européia e seus descendentes nas Américas aprendiam que nunca mais poderiam se ver como o centro e razão de toda a existência, e instintivamente se apegavam às muitas mas alquebradas promessas de que no fim das contas essa seria uma mentira ou ilusão, e seus valores e perspectivas seriam sim determinantes em toda a existência afinal de contas.  Foi uma época notável pelo enorme grau de aceitação de ideologias absolutamente pobres de lógica e de conteúdo, simplesmente porque prometiam conforto a curto prazo.

A Teoria do Grande Homem, em minha opinião, é parte integrante desse pânico ideológico eurocêntrico, e teve muitas das mesmas causas.

E quais seriam essas causas?  Por que, afinal de contas, o século dezenove foi tão conturbado de um ponto de vista intelectual?

Até onde posso ver, parece ter sido devido a uma conjunção dramática de fatores.  Entre eles, o avanço da tecnologia e a consequente perda das tradições e certezas que veio com ela.  Locomotivas, luz elétrica, geladeiras, até mesmo telefones tornaram possíveis estilos de vida muito mais ambiciosos e abrangentes do que se poderia sonhar poucas décadas antes.  Ninguém compreendia plenamente que tipo de consequências haveria ou deveria haver do contato tão facilitado com idéias tão exóticas e difíceis de entender e controlar.  Em 1889 (o mesmo ano da Proclamação da República no Brasil) inaugurava-se o Expresso do Oriente, e com ele passou a ser possível fazer o trajeto entre Paris e Constantinopla (hoje Istambul) confortavelmente e em menos de três dias.

Hoje isso pode não parecer tanta coisa, mas não tenho dúvida de que para muitos esse foi um choque cultural sem precedentes.  Constantinopla era a capital do Império Romano do Oriente, e alcançá-la era algo tão difícil, e exigia tanta determinação, que por muito tempo nobres europeus que garantiam ser os legítimos Imperadores passaram vidas inteiras sem sequer chegar perto da região.  O Império Romano do Oriente terminou no século quinze, cerca de mil anos depois do seu "irmão" em Roma, mas a própria distância fez com que na prática sua existência fosse relativamente sem consequências para o cotidiano da Europa; era apenas mais uma entre tantas culturas exóticas, distantes, quase lendárias e impossíveis de entender.

No entanto, essa era uma situação caminhando rapidamente para seu fim. O fim da escravidão, o declínio do prestígio da nobreza, a inevitabilidade do contato com culturas de outros continentes e da constatação de que eram no fim das contas gente com quem se poderia aprender muito, e não apenas hordas de bárbaros necessitando de orientação condescendente, esses e outros fatores tornavam gradativamente mais difícil ter a segurança sobre os rumos do futuro que era tão natural em tempos nos quais não se conhecia outra forma de viver.

Outro fator, frequentemente esquecido, é a insegurança que advém do aumento da população e do avanço da medicina.  Com todas as desvantagens que tem, uma vida em que você pelo menos sabe exatamente a quem paga impostos e em que a negociação de seu espaço vital e direitos é feita com apenas um punhado de pessoas, com uma hierarquia clara e cujos nomes todos conhecem com exatidão traz certezas e rumos claros.  Não se deve menosprezar o impacto psicológico de estar à mercê da boa vontade de uma classe política que nunca saberá da sua existência enquanto indivíduo.   Ninguém se sente realmente confortável sendo redundante, sendo simplesmente mais um entre inúmeros outros.  E o século dezenove pedia não apenas que aceitássemos que nossos regentes não soubessem nossos nomes, mas também que aceitássemos como significativa a existência de culturas inteiras que antes pareciam distantes e inalcançáveis.  Culturas que não falavam a mesma língua e que apresentavam diferenças que até hoje oferecem desafios consideráveis até mesmo para profissionais dedicados à tarefa de entendê-las.  Por mais que essa tarefa seja necessária e honrada, não se pode estranhar que o europeu típico quisesse se convencer de que ela não era particularmente importante, e não teria por que criar muitas mudanças em suas perspetivas - fosse essa ou não a verdade.



Escrito por Luis Dantas às 04h46
[] [envie esta mensagem] [] [Print it in Moleskine MSK format]



Um board game para enxadristas?

Sábado passado joguei "After the Flood" pela segunda vez. A primeira vez foi há talvez quatro anos atrás. Trata-se de um jogo de Martin Wallace para exatamente três jogadores. Como outros jogos de Wallace, é um eurogame matematicamente rigoroso e tematicamente bem cuidado. Neste caso, o tema de fundo é a civilização antiga da Suméria e a marcha de vários exércitos históricos em busca de supremacia.

A partida inteira dura apenas cinco rodadas e inclui duas fases de decadência, que ajudam a evitar o crescimento desenfreado que caracteriza tantos outros jogos. Há uma nítida elegância minimalista. E em dado momento, me ocorreu que este é um jogo tão inclemente quanto o xadrez; o único elemento de sorte em toda a partida é a escolha da ordem inicial de jogo. De resto, não há absolutamente nada em disputa ou em incerteza a não ser as escolhas completamente informadas dos jogadores e seus efeitos nos planos uns dos outros.

Seria "After the Flood" um jogo particularmente adequado para a análise racional e controlada de um bom enxadrista? Isso eu não sei, mas estou inclinado a acreditar que sim.



Escrito por Luis Dantas às 08h30
[] [envie esta mensagem] [] [Print it in Moleskine MSK format]



Perceberam o tamanho da bobagem e do estrago

Finalmente tentaram consertar o crime do juiz, descrito nas notícias do item anterior deste blog:

 

TJDFT derruba decisão que absolveu homem que tentou levar droga para Papuda

Traficante tentou transportar 46 gramas de maconha dentro do estômago para um amigo que estava preso


Escrito por Luis Dantas às 07h22
[] [envie esta mensagem] [] [Print it in Moleskine MSK format]



Tinha de ser um juiz de Brasília...

Por essas e outras que não entendo por que Direito é considerado curso superior...

 

Juiz alega que maconha não é droga proibida e absolve traficante

 

Juiz absolve réu por considerar maconha ‘recreativa’

 



Escrito por Luis Dantas às 09h38
[] [envie esta mensagem] [] [Print it in Moleskine MSK format]



O mais recente filme de Woody Allen, "Blue Jasmine"

Woody Allen tem um enorme talento humorístico, mas há muito tempo que seus filmes são cada vez mais sérios e profundos.  A safra mais recente tem sido notável em sua qualidade.  "Meia-Noite em Paris" era uma maravilha de sobriedade com um final otimista.  Este último, "Blue Jasmine", é um verdadeiro apelo ao bom-senso, com um toque verdadeiramente poético de advertência quanto às ilusões do deslumbramento.  A personagem-título é algo depressivamente verossímil - uma pessoa que tomou alguns atalhos, evitou algumas tomadas de consciência dolorosas, e com isso se pôs exatamente na posição em que criou muito estrago nas vidas das pessoas próximas, inclusive ela própria.  Jasmine é acima de tudo uma vítima, e paga um preço alto por sua própria mediocridade e falta de coragem moral.  Acostumada a viver nas alturas ilusórias do alto "status" social, descobre-se repentinamente como a pessoa miserável que sempre foi, incapaz de sequer compreender plenamente as profundezas de seu despreparo para lidar com a vida real.  Torna-se desonesta e nela reincide, não por malícia, mas por pura e drástica fragilidade.

Simultaneamente, o filme mostra também pessoas mais comuns e realistas, lidando com situações menos glamourosas mas pelo menos tentando se sustentar com as próprias pernas.  É um contraste doloroso e compassivo, uma advertência contra os perigos de se deixar fascinar por aquilo que não é realmente nosso nem pode de fato vir a ser.  E nas entrelinhas há uma mensagem muito discreta mas poderosa de apreço pela quieta aceitação e compreensão de que todos nós precisamos, mesmo que isso nos custe sonhos de grandeza que muitas vezes são mais um veneno do que qualquer outra coisa.



Escrito por Luis Dantas às 21h22
[] [envie esta mensagem] [] [Print it in Moleskine MSK format]



A necessidade do reconhecimento e cuidado das Holarquias, ou : Por que os futuros grandiosos não acontecem de forma sustentável?

Um conceito que aprendi com Ken Wilber e que valorizo é o de "Hólon".  A idéia de que os sistemas não existem em função de algum nível específico apenas, mas podem, devem, e talvez sempre tenham necessitado ter validade e sustentabilidade por si próprios, em todos os níveis perceptíveis.  Ao mesmo tempo, não deixam por isso de fazer parte de estruturas maiores, nem de ser compostos por sistemas menores.

Do meu ponto de vista é simplesmente insano não usar alguma variação dessa idéia se queremos realmente que nossos projetos maiores tenham algum significado ou durabilidade.  A alternativa é cair na Síndrome do Lanterna Verde, que nos leva a querer crer que as coisas acontecem simplesmente porque queremos muito sinceramente que aconteçam - uma doença patética, porém típica dessas gerações narcisistas atuais.  E em sua consequência inevitável, a necessidade de graus patológicos de fuga contínua, via drogas e outras doenças.

É por tentar ignorar essa realidade, tão evidente em retrospecto, que criamos muitos dos problemas que lamentamos.  Porque insistimos em querer fazer prédios sem pedras ou tijolos, ou pior ainda, simplesmente esperar de forma muito indignada que tais prédios se ergam sem ser propriamente construídos.  Só que não é assim que as coisas funcionam na prática, na vida real.  As pessoas não querem nos proteger e nos oferecer oportunidades simplesmente porque estamos muito acostumados a acreditar que é o que merecemos.  Criar problemas é de fato criar problemas, e não soluções.  A vida não é generosa com quem se orienta por uma percepção descuidada e caprichosa de suas próprias necessidades em vez de pelos fatos objetivos.

Ou talvez seja mais correto dizer que em contextos sociais como o nosso essa generosidade pode sim ser encontrada, simplesmente porque muito das gerações mais recentes quer desesperadamente acreditar que é assim que se deve viver.  Mas é uma situação artificial, inevitavelmente frágil e instável.  Resulta inevitavelmente em decepções que não são apenas fortes, mas também sentidas com impacto ainda maior porque seus afligidos foram mal orientados e mal preparados para lidar com elas.  Hoje em dia é comum encontrar pré-adolescentes gritando com toda sinceridade que precisam de marcas específicas de celulares, roupas e tênis.  E isso, sinceramente, é falta de vivência necessária em lavar louça, cozinhar sua própria comida, enfim, em manter contato com verdadeiras necessidades e suas implicações.  Quem cresce aprendendo que a solução para a frustração é gritar e chorar mais alto ainda vai acabar por gritar e chorar por toda a vida, com resultados cada vez mais questionáveis.



Escrito por Luis Dantas às 11h55
[] [envie esta mensagem] [] [Print it in Moleskine MSK format]



Reflexão sobre as contradições

Certa vez me disseram que um grupo de Soto Zen específico tinha por hábito procurar trabalhar com a terra durante seus retiros. Um bom hábito, como vim a concluir depois. O Budismo Zen está completamente correto em querer manter seus praticantes em contato inequívoco com as situações concretas e cotidianas, e todos devem procurar formar uma apreciação direta dos desafios e significância da prática da agricultura.

Afinal, todas as pessoas comem, e quem não produz seu próprio sustento está em última análise se beneficiando do trabalho alheio para sobreviver. Não há vergonha em depender dos outros, mas há tolice em se orgulhar de não compreender ou respeitar as próprias estruturas que nos sustentam.

Minha criação foi muito isolada e ocorreu em completa revelia de minhas vontades ou vocações pessoais, por isso demorei muito a perceber o quanto as pessoas costumam ser focalizadas em suas próprias circunstâncias imediatas e falhar em perceber contextos maiores. É de fato muito fácil se acostumar à segurança ou ao privilégio. É muito humano criar quase instintivamente uma variedade impressionante de "necessidades" de graus diversos de intensidade e legitimidade e crer piamente que tais necessidades são reais e precisam ser atendidas. Nossos sensos de identidade são tão frágeis quanto gulosos.

Muitas vezes me perguntou como seria se eu tivesse escolha. Teria sido tão fácil para mim perceber essa fragilidade e desenvolver aversão a ela? Eu teria aprendido a ver com certo humor a idéia de que certas pessoas fazem questão de se apresentar como sendo "autoridades" ou "doutores" mesmo quando os fatos tornam impossível ignorar que são apenas mortais perfeitamente falíveis, não raro medíocres e paupérrimas até? Qual teria sido a chance de eu querer ser mais um a seguir o caminho acomodado, se ele me tivesse sido permitido?

Nunca vou saber ao certo. Mas não posso negar que essa negação me proporcionou uma perspectiva rara, embora desconfortável, da qual tenho hoje considerável apreço e orgulho. Paradoxalmente, ser consistentemente negado apoio, reconhecimento ou segurança me fez perceber que muito dos caminhos mais populares é ilusório ou destrutivo. Não é coincidência que eu tenha uma posição radical contra o uso de drogas e ainda hoje me surpreenda de essa ser uma posição minoritária.

Em anos recentes a percepção da fragilidade das expectativas sociais me tem vindo com enorme clareza e intensidade. Vejo as pessoas tendo filhos e simplesmente acreditando que isso não terá consequências ruins. Vejo alunos comemorando que não estão precisando aprender o básico para passar de ano no ensino básico e médio. Vejo profissionais e pais de família reclamar do que basicamente é pouco mais do que a falta de vontade da sociedade maior em lhes prestigiar. Vejo pessoas que são privilegiadas com um grau de proteção que não compreendem nem merecem insistir consistentemente em demandar impacientes por ainda mais privilégio e proteção, talvez exatamente porque em algum nível muito oculto estão conscientes de quão pouco podem confiar no que insistem afirmar ser "seus direitos" e de quão pouca esperança tem de sequer compreender algum dia como poderiam fazer para merecer tanto sacrifício alheio.

De fato, há uma relação muito curiosa e problemática entre os comandantes e os comandados. A natureza humana aspira naturalmente a testemunhar eventos grandiosos e influentes. Causá-los se possível, sim, mas apenas testemunhá-los se necessário. É um paradoxo que remonta ao ideal clássico do herói grego, que ao mesmo tempo que inspirava à população reflexões sobre a grandeza e permitia um sentimento de conexão com esta, se via em uma situação tão exagerada e insustentável que necessariamente se via destruído ao final. É a mesma situação em que se vêem hoje, entre outros, os nossos políticos, que são odiados e desprezados ao mesmo tempo em que esperamos que sejam algum tipo de transformadores sobre-humanos embora essa expectativa seja claramente absurda.

O mito do herói para ser odiado e cobrado é muito forte em nossa cultura. Mas não creio que seja uma tendência a que convém nos render. Cultivar maturidade, responsabilidade própria e lucidez faz muito sentido e é provavelmente necessário. Corremos o risco de nos intoxicar com o apego a mitos e às expectativas que projetamos neles.



Escrito por Luis Dantas às 11h29
[] [envie esta mensagem] [] [Print it in Moleskine MSK format]



Para que serve o "Direito"?

Uma convicção pessoal firme minha é a de que nossa sociedade desperdiça muitos recursos e cria muito sofrimento e alienação evitáveis por mistificar certos conceitos.  Um deles é o que em outros países é chamado de Lei, mas aqui no Brasil é um tanto surpreendentemente chamado de "Direito".  Uma área que algum dia não mais será aceita como opção legítima de atividade profissional.

Este artigo por Gisela Maria Bester ilustra bem como muito da supostamente essencial atividade da área de advocacia e arbitragem política oficial acaba sendo, na prática, uma fuga coletiva.  Um esforço majestoso em construir tigres de papel para depois gastar esforços igualmente impressionantes em destruí-los, enquanto se afirma continuamente que problemas significativos estariam sendo resolvidos nesse exercício.

Como salvar a Constituição dos “constitucionalistas”?

Um nome mencionado de passagem nesse artigo é o de Luis Alberto Warat, professor de Direito nascido na Argentina que aparentemente alcançou considerável fama lá e aqui no Brasil por suas teses surpreendentes e desorientadoras.  Não duvido que ele tenha sido bem intencionado e que inclusive tenha beneficiado muito a percepção e consciência social dos profissionais da área.  Mas não deixa de ser tristemente irônico que até mesmo os heróis do "Direito" o são exatamente por causar confusão e desorientação entre o que supostamente são linhas sólidas de orientação da área.  

A supervalorização das atividades de arbitragem (necessária por motivos pragmáticos, mas completamente inadequada para qualquer tipo de intenção de reforma da sociedade) e de advocacia (inerentemente criadora e preservadora de desigualdades sócio-econômicas e de distorções sérias de percepção da utilidade e valor dos elementos da sociedade) é uma das realidades mais tristes e destrutivas da cultura ocidental.



Escrito por Luis Dantas às 11h01
[] [envie esta mensagem] [] [Print it in Moleskine MSK format]



De um post recente meu no fórum religiousforums.com:

Of course secularists commit blunders. They can hardly be expected to be divinely protected from missteps - certainly not more so than theists.

Although I sometimes wonder - but that is a matter for another thread.

When the tire meets the tarmac:

1. The proof is in the pudding. Morals are superior when they work, as opposed to claiming to work. It matters not if they were enounced by a mystic sage or obtained in any other way.

2. Morals are by necessity living as well as objective, despite widespread mistakes.

2.1. They can and must change along time and adjust to differing circunstances and above all to improved knowledge, including scientific knowledge.

2.2. They depend most of all on the actual capabilities and discernment of those who are judged by them.

2.3. While adjustable and quite arguable, they are hardly subjective, although their understanding unavoidably is. Morals are a duty, a permanent intelectual challenge - and, in fact, a major reason to develop rationality - and they will be understood differently by different people or even in different circunstances or even simply at different points in time. Despite the inconvenients, that is really a good and necessary fact. But that should not be confused with an open license to personal morals that do not pay tribute to actual objective reality. Morals are above all else a duty to greater society, after all. They are necessarily grounded to and calibrated by objetive factors and are in that sense unavoidably objective. They are just hard to freeze by textual rules, judiciary rulings and general understandings. They must be personally understood and developed if they are to make any sense at all.



Escrito por Luis Dantas às 05h06
[] [envie esta mensagem] [] [Print it in Moleskine MSK format]



Revendo "Bokurano"

"Bokurano" é uma série de anime que já comentei neste blog anos atrás.  Quero tentar revisitar e testemunhar novamente seu apelo agora.  Sei que há um mangá que antecedeu e inspirou esta obra, mas não vou me preocupar com ela neste momento, até porque não a li.

A série é até curta - apenas 24 episódios - e, se é competente em todos os aspectos importantes, não se destacaria só por isso.  O traço não é mais limpo do que o de RahXephon, por exemplo.  E o conceito básico não é uma maravilha de originalidade; não faltam séries de mecha com jovens pilotos condenados a morrer.

Mas a implementação de Bokurano é realmente muito artística e poética.  A abertura e os dois encerramentos são verdadeiras armadilhas emocionais, contrapondo a inocência e a esperança juvenis à constatação de que sua existência nada mais é do que uma sucessão de obrigações traumáticas e desespero em vão.  

Lá pelo quarto episódio já não dá mais para ver o encerramento, que pouco mais é do que uma sucessão de quinze garotos sentados e sorrindo, sem um aperto no coração; cada um deles é uma promessa traída, uma esperança desfeita... e a cada episódio essa amargura nos é recordada.

Na metade da série, essa sequência de encerramento é trocada por outra ainda mais pungente, ao som de "Vermillion" e com uma cena completamente estática, em que é a câmera que segue a sequência dos protagonistas, flutuando no espaço, de mãos dadas, em pleno abandono e insuportavelment sorridentes.  Dá vontade de gritar.

Há quem ache que "Jogos Mortais" ensina as pessoas a valorizar suas vidas e suas graças.  Só posso imaginar que não viram "Bokurano".

Sublinhando a todo esse clima de perda inexorável, os episódios sempre mostram muito do presente e passado dos protagonistas e suas pessoas mais próximas.  É realmente desconcertante a sensação de acompanhar os pilotos, morrendo um por um e perdendo gradual e inevitavelmente a esperança e o propósito, enquanto as pessoas à sua volta tentam decidir como se sentem a respeito e em que grau querem continuar com sua rotina.  A partir de certo ponto, a atmosfera emocional é tão completamente insuportável que se atinge uma forma curiosa e liberadora de exaustão.  Todas as máscaras caem e só fica a reflexão de como são preciosas todas essas pequenas maravilhas cotidianas que sempre nos frustram, mas que sempre lamentamos vir a perder.

Altamente recomendada.  Tenho motivos para crer que o mangá também seja bom, mas não espero que seja exatamente similar.



Escrito por Luis Dantas às 00h29
[] [envie esta mensagem] [] [Print it in Moleskine MSK format]



A quem cabe educar?

Uma interessante matéria da Gazeta do Povo de hoje sugere questões interessantes:

Para professores, déficit no ensino é culpa dos alunos

http://www.gazetadopovo.com.br/vidaecidadania/conteudo.phtml?tl=1&id=1381379&tit=Para-professores-deficit-no-ensino-e-culpa-dos-alunos

 

Pode parecer à primeira vista que os professores estão simplesmente seguindo o caminho mais cômodo.  Mas acho apressada uma conclusão como essa.  Até que ponto professores que tem liberdade de ação limitada e que muitas vezes são ignorados em favor do celular ou smartphone em plena sala de aula podem - ou devem - ser considerados responsáveis pela qualidade do aprendizado?

 

A atual cultura de produção em massa de diplomas pode não entender, ou preferir não entender, mas muito da qualidade de educação dos filhos é sim responsabilidade dos pais - e das próprias crianças ao escolher suas prioridades, na medida em que suas circunstâncias o permitam.

Quando o professor é tratado como um inimigo pelos próprios pais das crianças que tenta educar porque quer que mostrem algum respeito à proposta da escola, à sua autoridade como educador, será que realmente não há alguma responsabilidade destes pais?  Quando uma criança de 14 anos assassina a ortografia e se recusa a aprender a ler horas em relógios analógicos e os pais passam a mão na cabeça enquanto os colegas chegam a comemorar a "coragem" do iludido, até que ponto os professores e diretores de escolas podem reparar o dano?



Escrito por Luis Dantas às 14h51
[] [envie esta mensagem] [] [Print it in Moleskine MSK format]



Leitura Comentada - "O Rei de Ferro" por Maurice Druon - Apresentação

"O Rei de Ferro" é o primeiro de uma série de sete livros escritos pelo talentoso Maurice Druon entre as décadas de 1950 e 1970. 

Trata-se de um romance histórico que começa em 1314 - último ano do reinado de Felipe IV, o Belo, Rei da França - e chega eventualmente a 1356, com a captura do Rei João, o Bom e o início da regência do Delfim Carlos V.

O início da trama envolve a execução pública dos últimos líderes templários e uma maldição proferida por Jacques de Molay no momento em que é queimado vivo.  Esse é o único elemento possivelmente sobrenatural da história, porém.  As duas linhas condutoras da narrativa são os turbulentos eventos da coroa francesa, que tantas vezes mudou de mão nesse período, e as intrigas de Roberto III de Artois para recuperar o Condado de Artois de sua tia Mafalda (ou Matilde) de Artois.

A maioria absoluta dos personagens principais são históricos.  A exatidão histórica não é absoluta, mas com certeza impressiona.

Uma linha secundária, mas significativa, da narrativa descreve a corte da Inglaterra do mesmo período, com destaque para a rainha consorte Isabela, filha de Felipe o Belo e mãe de Eduardo III da Inglaterra.

Os eventos da trama precedem e em grau significativo preparam o terreno para o que veio a ser conhecido como a Guerra dos Cem Anos entre França e Inglaterra.



Escrito por Luis Dantas às 23h23
[] [envie esta mensagem] [] [Print it in Moleskine MSK format]



Sobre liberdades, obrigações e deveres

Disse alguém que uma boa pessoa traça um círculo no chão e chama sua família imediata para viver em suas fronteiras, enquanto que uma pessoa melhor traça um círculo maior e chama também parentes, amigos e vizinhos.

Gosto dessa ilustração, que mostra como as fronteiras da responsabilidade pessoal são arbitrárias e tem de levar em consideração tanto a real capacidade e disposição da pessoa em si quanto a condição que há de confiar e se comunicar com o ambience familiar e social em volta.

O primeiro impulso é achar que quanto mais amplo o círculo, melhor.  E há muita verdade nisso, mas não é a verdade completa.  Um círculo excessivamente amplo implica em assumir responsabilidades das quais não se dá conta, criadas por pessoas em que não se confia e que não se conhece muito bem.  Sem um grau adequado de restrição do escopo e dos objetivos não se consegue cultivar a atitude de integração e confiança mútua que torna possível fazer alguma coisa em primeiro lugar.



Escrito por Luis Dantas às 15h18
[] [envie esta mensagem] [] [Print it in Moleskine MSK format]




[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]